CAPÍTULO 1
Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino
R.S. Calvino
6/9/20264 min read


CAPÍTULO 1
“A verdadeira Máscara não é esconder o monstro. É convencer o mundo de que ele sempre foi belo.”
Primigênie Toreador
A câmara estava silenciosa demais para um lugar onde homens ainda respiravam.
A luz entrava em lâminas estreitas pelas aberturas altas de pedra, cortando o ar pesado e revelando partículas suspensas — poeira, cinza… ou algo mais antigo. O cheiro era de óleo queimado, pergaminho úmido e carne que já não pertencia ao mundo dos vivos.
No centro, sobre uma mesa baixa de pedra, repousava o corpo. Ainda quente. Ainda inteiro. Mas já… ausente.
Padre Aurelius Varro permanecia ao lado, mãos cruzadas, olhos fixos não no cadáver… mas no ventre do homem morto, como se ainda buscasse ali algum sinal, algum vestígio do instante que ele passara a vida inteira tentando compreender.
Cassian de Tiro um jovem escriba, sentado na mesa ao lado com os olhos brilhando de admiração procura tudo anotar.
Nemesius estava do outro lado da mesa. Imóvel. Observando. Não o corpo. Mas o processo.
— Ele se foi — disse Aurelius, baixo, como quem confirma algo que já sabia.
Nemesius não respondeu. Cassian de Tiro pega mais pergaminhos e tinta, o som quebra o silêncio da cena. O mar quebra ao longe. O garoto se põe a escrever aflitamente.
Nemesius se inclinou levemente, aproximando o rosto do cadáver, como se escutasse algo que ninguém mais podia ouvir.
— Não — disse por fim.
Aurelius ergueu os olhos.
— Não?
Nemesius tocou o pulso do morto. Não como um médico… mas como um estudioso diante de um fenômeno raro.
— Ainda não completamente. O silêncio que se seguiu foi imediato. Pesado.
Aurelius deu um passo atrás. O garoto de erguem para ver melhor, aparenta ter uns 17 anos, já sabe escrever com disciplina, já tem formação religiosa básica, já entende a importância de registrar, não é uma criança inocente, mas só tem 15 anos na verdade.
— Isso não é possível. Heresia!
— É observável — respondeu Nemesius.
O padre apertou os olhos.
— Você vê o que quer ver.
— E você ignora o que teme ver.
Antes que Aurelius pudesse responder, o corpo sobre a mesa se moveu. Não como um despertar. Não como vida. Mas como um reflexo tardio… deslocado. Um espasmo lento, quase indeciso, percorreu o braço do cadáver.
Aurelius congelou.
Nemesius… apenas observou.
— Veja — murmurou.
Mas o padre não via aquilo como descoberta. Via como erro.
E então algo mudou. Não no corpo. No ar. A temperatura caiu de forma súbita. Não o frio da noite, mas o frio que parece vir de dentro das coisas. A luz nas paredes vacilou, como se hesitasse em permanecer. Ao longe o barulho do mar…
Aurelius levou a mão ao peito. Não em oração. Mas em alerta.
— Isto… — começou ele. Mas não terminou.
Seus olhos se perderam por um instante. Não fecharam. Não reviraram. Apenas… deixaram de focar. Nemesius percebeu imediatamente. Deu um passo à frente.
— Aurelius?
Nenhuma resposta.
O padre permanecia de pé, mas algo nele havia se deslocado. Quando falou novamente…não foi como antes. Sua voz era a mesma. Mas o ritmo…não.
— E no tempo em que os homens ousarem tocar o limite entre a vida e a morte…
Nemesius ficou imóvel. Não por medo. Por atenção absoluta.
— …haverá um erro que caminhará entre eles.
Aurelius não olhava mais para nada presente. Seu olhar atravessava o espaço. Ou o tempo.
— Não será nascido como os vivos…
Sua mão, lentamente, deixou o peito e caiu ao lado do corpo.
— …nem despertado como os condenados.
O corpo sobre a mesa se moveu novamente.
Dessa vez… mais forte. Nemesius não desviou o olhar.
— Não será reclamado pelo céu…
A voz de Aurelius começou a tremer. Tremer com incrível tensão.
— …nem reconhecido pelo inferno.
Um som surgiu. Baixo. Irregular. Não do corpo. Mas da própria sala. Como se algo… respondesse.
— E aqueles que se alimentam do sangue…
Aurelius inclinou levemente a cabeça, como se escutasse algo sendo dito a ele.
— …não encontrarão nele sustento.
Nemesius deu mais um passo à frente. Agora muito próximo. Seus olhos fixos no padre, tentando compreender algo incompreensível para aquele mundo de 373 d.C.
— Pois sua essência não será dom…
A voz falhou por um instante.
Aurelius levou a mão à garganta.
— …mas ausência.
O corpo na mesa parou. Completamente. Como se… tivesse decidido. A luz estabilizou. O frio… permaneceu. Aurelius respirou fundo. E então disse, mais baixo:
— A fome cessará onde ele passar…
Seus olhos voltaram lentamente ao foco. Mas ainda não estavam… ali.
— …mas não por saciedade. Um último tremor na voz.
— E sim por esquecimento.
Silêncio. Total. Aurelius piscou. Uma vez. Duas. E então voltou.De verdade. Olhou ao redor, confuso por um instante. Depois para Nemesius.
— O que… aconteceu?
Nemesius não respondeu imediatamente.
Seus olhos ainda estavam sobre ele.
Analisando. Pesando. Registrando. Por fim, disse:
— Você descreveu.
Aurelius franziu o cenho.
— Descrevi o quê?
Nemesius olhou para o corpo na mesa. Depois voltou para ele. E respondeu, com a mesma calma de sempre:
— Aquilo que vem depois.
Aurelius sentiu o peso daquelas palavras antes mesmo de entendê-las.
— Não… — começou ele.
Mas parou. Porque, pela primeira vez…não tinha certeza. O silêncio voltou à sala. Mas agora não era o mesmo. Agora… ele sabia. Nemesius deu um último olhar para o cadáver. E então disse, quase para si mesmo:
— Então existe.
Aurelius fechou os olhos por um breve instante.
E respondeu, baixo:
— E não deveria.
Nenhum dos dois se moveu. Mas naquele momento…o mundo que conheciam havia terminado. E nenhum deles ainda compreendia…o que havia começado.
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