CAPÍTULO 2
Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino
R.S. Calvino
6/10/20263 min read


CAPÍTULO 2
“Harpias em Manaus não destroem reputações. Elas refinam o processo.”
Donana -Harpia Toreador
A casa parecia deslocada do tempo. As trevas habitavam! Não havia televisão. Nenhum aparelho moderno. Nenhum som além do estalar ocasional da madeira antiga e do leve sussurro das páginas sendo viradas. As paredes eram revestidas por tapeçarias escuras, bordadas com símbolos que já não pertenciam a língua alguma viva. Velas substituíam lâmpadas, lançando sombras inquietas que pareciam se mover por vontade própria. No centro da sala, sobre um chão marcado por círculos antigos e repetidos, Carlos permanecia ajoelhado. Pálido, sem se mover …Inerte, morto! Concentrado.
À sua frente, um livro aberto repousava sobre um suporte de madeira entalhada. As páginas eram amareladas, irregulares, como se tivessem sido arrancadas de diferentes obras ao longo dos séculos. A caligrafia variava — algumas partes precisas, outras quase indecifráveis. A tonalidade amarelada das páginas denunciavam a idade do material…
Ele já estava ali há horas. Talvez mais. Seus dedos estavam manchados de cera e algo mais escuro. O olhar, fixo, não demonstrava cansaço — apenas obsessão.
— De novo.
A voz veio de trás. Calma. Grave. Antiga. Carlos não respondeu. Não precisava. Ergueu lentamente a mão esquerda, posicionando-a sobre o centro do círculo traçado no chão. Seus lábios começaram a se mover, repetindo palavras que não deveriam existir. Não era uma língua. Era… estrutura. Som. Intenção. No início, nada aconteceu. Como sempre.
O homem ao fundo observava, apoiado contra a parede. Trajava roupas sóbrias, escuras, perfeitamente alinhadas. Seus olhos acompanhavam cada movimento com um misto de avaliação e algo mais difícil de definir.
Desdém. Ou talvez… expectativa. Carlos continuou.
A voz ganhou ritmo. Não volume — ritmo. As velas tremularam de forma irregular, como se o ar tivesse sido alterado. O silêncio da casa se tornou pesado, denso, quase sólido.
Então—
Um estalo seco. Algo aconteceu. Pequeno. Quase insignificante. Sobre o centro do círculo, acima do chão, surgiu um objeto. Minúsculo.
Uma peça de metal escuro, irregular, como um fragmento de algo maior. Não caiu. Não foi lançado. Apenas… apareceu.
Carlos parou.
O silêncio voltou com força. Seus olhos fixaram o objeto. Nenhuma reação imediata. Nenhuma celebração. Apenas confirmação. Atrás dele, o homem descruzou os braços.
Aproximou-se lentamente. Observou o objeto flutuando por um breve instante… e então sorriu. Um sorriso contido. Controlado.
— Demorou.
Carlos permaneceu imóvel.
— Mas funcionou — continuou o homem, com um leve inclinar de cabeça. Ele se agachou ao lado do círculo, analisando o pequeno fragmento como um artesão avaliaria uma obra inacabada.
— A maioria nunca chega aqui. Carlos finalmente falou:
— É instável.
— Claro que é — respondeu o homem, sem tirar os olhos do objeto. — Você abriu uma porta… não construiu uma passagem. O objeto tremeu. Por um segundo, pareceu distorcer — como se não pertencesse completamente àquele espaço. Então caiu. Silencioso. Inerte. Carlos abaixou lentamente a mão.
— De novo — disse.
O homem soltou uma breve risada, quase imperceptível.
— Não.
Ele se levantou.
— Hoje não.
Carlos franziu levemente o cenho, mas não insistiu. O homem caminhou até a janela coberta por tecido pesado e afastou uma pequena fresta. Lá fora, a noite permanecia intacta, profunda, indiferente.
— Você não entendeu ainda — disse ele, sem olhar para trás. — Não se trata de trazer algo até aqui.
Fez uma pausa.
— Se trata de garantir que aquilo que você trouxe… queira permanecer.
Carlos olhou novamente para o pequeno objeto no chão. Algo nele… estava errado. Não na forma. Na sensação. Como se ainda estivesse… sendo observado. O homem voltou-se para ele, agora sério.
— Quando isso acontecer — disse, com voz mais baixa —, você não estará mais treinando.
Silêncio. As velas voltaram a queimar de forma estável. Mas o ar…o ar ainda parecia diferente. E por um breve instante — tão breve que poderia ser ignorado — a sombra do objeto no chão não coincidiu com a luz das velas. E as trevas voltaram para casa!
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