CAPÍTULO 3
Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino
R.S. Calvino
6/11/20264 min read


CAPÍTULO 3
“Há três coisas que você nunca deve subestimar nesta cidade: o silêncio de um Nosferatu, a paciência de um Ventrue… e o tédio de um Toreador.”
Ricardo Turenko - Toreador
Kai Sefu saiu do prédio antigo no Centro como quem já tinha decidido tudo antes mesmo de pôr o pé na rua. A porta de ferro fechou atrás dele com um estalo seco e o calor de Manaus veio como um soco no rosto, pesado, úmido, grudando na pele, no cabelo, na roupa. A cidade ainda estava viva, carros passando, motos cortando o trânsito, gente andando rápido demais pra quem não sabia que era observada o tempo todo. Ele parou um segundo na calçada, olhando o movimento, sentindo o pulso da noite, e então começou a andar.
Não era pressa. Era direção calculada.
A boate ficava a poucas quadras dali, uma dessas casas noturnas que misturam luxo mal acabado com decadência escondida. Luz neon piscando na fachada, fila na porta, segurança grande tentando parecer mais importante do que era. Música eletrônica vazando pra rua, grave batendo no peito de quem passava. Kai Sefu atravessou a fila sem pedir licença, sem olhar pra ninguém, como se aquilo tudo já fosse dele. Um dos seguranças esticou o braço, automático.
— Aí, chefe, fila—
Kai Sefu parou.
Olhou pra mão no caminho.
Depois olhou pro rosto do segurança.
Não levantou a voz.
— Tira.
O cara hesitou meio segundo. Meio segundo foi o suficiente pra Kai Sefu dar um passo à frente, agarrar o pulso dele e torcer com força. O estalo foi limpo, seco, o tipo de som que some rápido no meio da música alta, mas o corpo do segurança caiu de joelhos na hora, segurando o braço, o ar saindo em um gemido baixo.
O outro segurança avançou, já com a mão indo pra cintura. Kai Sefu virou o rosto devagar, encontrou os olhos dele e sustentou o olhar.
— Fica.
A palavra veio pesada. Densa. O cara congelou. Respiração presa. Olhos abertos demais. Não era sugestão. Era ordem.
Kai Sefu soltou o primeiro, empurrou o corpo pro lado e entrou sem olhar pra trás. Lá dentro o ar era pior. Calor, cheiro de bebida, perfume barato misturado com coisa mais forte. Luzes cortando o escuro, gente dançando, rindo, se esfregando, vivendo aquela ilusão de liberdade que durava só até o dia seguinte. Ele atravessou o salão como uma lâmina, abrindo espaço sem encostar em ninguém. Alguns olhavam, outros nem percebiam. Os que percebiam… desviavam.
Ele foi direto pro bar.
— O dono — disse.
O barman fingiu não entender.
Erro.
Kai Sefu apoiou a mão no balcão, inclinou o corpo pra frente e encarou o cara.
— Eu não vou repetir.
O barman engoliu seco, olhou pros lados e apontou com o queixo.
— Escritório… lá atrás.
Kai Sefu nem agradeceu. Seguiu pelo corredor estreito, longe da música, onde o som já chegava abafado e o cheiro mudava. Mais limpo. Mais caro. Porta fechada no fim. Ele não bateu. Chutou. A porta abriu de uma vez, batendo na parede.
Dois homens lá dentro. Um sentado, camisa aberta, corrente no pescoço. Outro em pé, mais novo, cara de quem resolve problema na base da força. Os dois olharam.
— Quem é você, porra? — disse o mais novo, já avançando.
Kai Sefu fechou a porta com o pé.
— Eu sou o erro de vocês hoje.
O cara veio seco, soco direto. Kai Sefu desviou pro lado, agarrou o braço, girou o corpo e jogou o sujeito contra a mesa. Madeira rachou, garrafa caiu, vidro estourando no chão. O outro já levantava, puxando algo da gaveta. Kai Sefu foi mais rápido, cruzou o espaço em dois passos, segurou o pescoço do homem e bateu a cabeça dele na parede. Uma vez. Duas. O corpo amoleceu.
Silêncio.
Só o som abafado da música lá fora.
O primeiro tentou levantar, tonto, sangue escorrendo da testa. Kai Sefu puxou uma cadeira, virou ao contrário e sentou, apoiando os braços no encosto.
— Agora a gente conversa.
O dono respirava pesado, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Você tá morto — disse ele, cuspindo sangue. — Sabe com quem você mexeu?
Kai Sefu inclinou levemente a cabeça.
— Sei.
Pausa.
— Com alguém que perdeu.
O homem riu, nervoso, tentando recuperar o controle.
— Você não manda aqui, não—
Kai Sefu levantou um dedo.
— Olha pra mim. O dono hesitou. Mas olhou. E foi aí que acabou. O mundo do homem encolheu. A música sumiu. O medo ficou grande demais pra caber no corpo.
— Você vai ouvir — disse Kai Sefu, baixo, firme. — E vai entender.
O cara tentou desviar o olhar. Não conseguiu.
— Essa boate… — Kai Sefu continuou — …agora é minha.
O local ficou como um cemitério, sem um único ruído naquele momento!
— Você vai continuar sentado nessa cadeira, vai continuar achando que manda em alguma coisa, vai continuar pagando quem tem que pagar… mas metade disso aqui é meu.
O homem piscou devagar. Respiração pesada.
— Metade… — repetiu, como se a palavra viesse de outro lugar.
— Não — corrigiu Kai Sefu. — Sociedade.
Pausa.
— Eu mando. Você executa.
O cara assentiu, lento.
— Eu executo.
Kai Sefu se levantou, caminhou até ele e segurou o queixo do homem, levantando o rosto.
— Se mentir pra mim… — disse, encarando fundo — …você para.
O dono engoliu seco.
— Eu paro.
Kai Sefu soltou. O corpo do homem caiu de volta na cadeira, como se tivesse sido desligado por um segundo. O outro, jogado no chão, gemia baixo, ainda tentando entender onde estava.
Kai Sefu caminhou até a porta, abriu e parou antes de sair. Olhou uma última vez para o escritório destruído, para o homem sentado, para o outro tentando se recompor.
— Arruma isso — disse, simples.
E saiu. O som da boate voltou como uma pancada. A multidão continuava ali, dançando, bebendo, vivendo. Mas agora… aquela casa tinha dono. E enquanto caminhava de volta pelo salão, Kai Sefu sentiu a cidade de Manaus pulsando debaixo dos pés, quente, viva, desorganizada, cheia de espaços esperando alguém tomar. Ele não sorriu. Mas decidiu. Aquilo era só o começo.
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