CAPÍTULO 4

Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino

R.S. Calvino

6/12/20264 min read

CAPÍTULO 4

“Você acha que está escondido porque ninguém te vê. Eu não preciso ver.”

Nictur - Primigënie Nosferatu

Alexandria 373 D.C, ruas estreitas, de pedra clara, cheiro de sal vindo do mar, poeira fina sempre no ar. Em uma casa de pedra dois amigos conversam.

— Você tem evitado meus olhos — disse Aurelius, sem se virar.

A voz era calma, mas não neutra.

Nemesius ergueu o olhar lentamente.

— Não os evito. Apenas não os procuro como antes. Estou velho e cansado dos nossos embates.

Aurelius fechou os olhos por um instante. Parecia rezar ao segurar seu crucifixo com a mão direita.

— Isso é ainda pior.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era carregado de tudo o que já havia sido dito entre eles — e, mais perigosamente, do que ainda não fora.

— Somos amigos faz muito tempo?

Aurelius apenas assentiu com a cabeça.

— Eu sempre respeitei sua religiosidade. Você sempre respeitou minhas convicções. Eu acredito na morte. Você acredita na vida. É estranho que não acredite em uma outra vida sem ser depois da morte.

— Velho amigo. Sua ciência para onde a minha continua. — Diz Aulelius. —O Cristianismo está dominando o Império Romano. Cultos antigos gregos, egípcios, pagãos ainda resistem mas findarão. Conflitos religiosos são frequentes, mas conhecimento antigo está sendo questionado ou destruído.

Nemesius ergue o queixo. — Monges fanáticos, sacerdotes antigos em decadência. A famosa Biblioteca já não é mais o que foi…aqui eu estudar o impossível!

— Eu acompanhei um parto hoje — continuou Aurelius, finalmente se voltando. — Uma criança que não deveria sobreviver. Frágil, prematura… imperfeita em cada aspecto que um homem poderia julgar como insuficiente.

Ele deu um passo à frente.

— E ainda assim… no instante exato… algo aconteceu.

Nemesius observava, atento.

— O corpo respondeu — disse o padre, com uma intensidade crescente — não como matéria reagindo… mas como algo sendo… autorizado.

A palavra pairou no ar.

— Autorizado? — repetiu Nemesius, quase em curiosidade.

— Sim — respondeu Aurelius, agora mais firme. — Não criado. Não formado. Autorizado.

Ele se aproximou ainda mais.

— Como se houvesse um momento preciso… invisível… em que a existência deixa de ser possibilidade… e se torna fato.

Nemesius inclinou levemente a cabeça.

— E você acredita que esse momento é absoluto?

— Eu sei que é — respondeu Aurelius, com uma convicção que beirava o desespero. — Nunca falha. Nunca hesita. Nunca… se perde.

Um longo silêncio se estendeu.

Então Nemesius falou, com a suavidade de quem não confronta… apenas desloca o argumento:

— Eu vi falhar.

Aurelius não reagiu de imediato. Mas seus olhos mudaram.

— Não — disse ele, baixo.

— Sim.

— Você viu morte imperfeita. Não vida?

— Eu vi algo que não terminou — corrigiu Nemesius. — E se algo não termina… então o processo não é absoluto.

Aurelius balançou a cabeça, lentamente.

— Você está tentando levar o fim para o mesmo território do começo.

— E você está tentando manter o começo intocado por medo do que isso implica.

As palavras não foram duras.

Mas foram definitivas. O padre caminhou até a mesa, apoiando ambas as mãos sobre ela, como se precisasse sentir o mundo ainda firme sob seus dedos.

— A vida — disse ele, com voz mais baixa — não é apenas um fenômeno. Ela é uma concessão.

Nemesius se levantou.

— E se for um mecanismo?

Aurelius virou-se rapidamente.

— Não.

— E se for algo que pode ser compreendido?

— Não.

— E se for algo que pode ser replicado?

— NÃO.

A palavra ecoou mais forte do que o ambiente parecia permitir.

O silêncio que veio depois foi pesado. Quase solene. Aurelius respirava mais fundo agora, mas não por cansaço. Por medo.

— Você não entende o que está sugerindo — disse ele, finalmente, mais contido.

Nemesius o encarava com uma serenidade que era, por si só, perturbadora.

— Eu entendo perfeitamente.

— Não — insistiu Aurelius — você entende as partes. Não o todo. Nós entendemos a parte, nunca o todo.

Ele se aproximou devagar.

— Existe algo que você não vê porque está olhando para o lado errado do espelho.

Nemesius permaneceu imóvel.

— E qual lado seria o correto?

Aurelius respondeu, quase em um sussurro:

— O lado em que não somos nós que decidimos.

O olhar entre os dois se sustentou por longos segundos.

Anos de respeito. Anos de confronto. Anos de amizade. Tudo condensado ali. Então Nemesius disse, com uma tranquilidade que soava como despedida:

— E se nunca houve decisão?

Aurelius sentiu aquilo como um golpe silencioso.

— Então tudo o que acreditamos… — começou ele, mas não terminou.

Nemesius completou:

— …é apenas interpretação.

O padre recuou um passo.

E, pela primeira vez, não encontrou resposta imediata.

A chama das lamparinas voltou a tremular, como se o ar tivesse se movido… ou como se algo tivesse escutado.

Aurelius olhou para Nemesius com uma expressão que não era mais apenas oposição.

Era perda antecipada.

— Há um limite — disse ele, por fim.

— Eu sei.

— E você vai cruzá-lo.

— Eu já estou cruzando.

O silêncio final não pediu mais palavras.

Aurelius apertou os dedos, lentamente, como quem tenta segurar algo que já escapa.

— Se você estiver certo… — disse ele, com dificuldade — então o que vem depois não é vida.

Os dois permaneceram ali, imóveis. O mar quebra forte como se fosse um trovão em noite de tempestade. Mas algo já havia mudado. Não no mundo. Mas entre eles. E, talvez, isso fosse ainda mais irreversível.

Nemesius respondeu, com a mesma calma de sempre:

— Nem morte.


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