CAPÍTULO 6
Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino
R.S. Calvino
6/14/20263 min read


CAPÍTULO 6
“Há três coisas que não podem esconder de mim: o sangue que derramou, os segredos que guardou. E o pensamento que ainda não teve coragem de admitir”
Wollder Lyrius - Alastor Treme
O quarto era pequeno demais para conter o que estava prestes a acontecer.
As paredes, marcadas pelo tempo e pela umidade, pareciam respirar lentamente, como se compartilhassem da expectativa silenciosa que se acumulava naquele espaço. O ar estava pesado, quente, saturado pelo cheiro de sangue, suor e óleo queimado das lamparinas que lançavam uma luz amarelada e trêmula sobre os rostos tensos. A mulher gritava. Mas não era um grito comum. Havia nele uma nota dissonante, algo que não pertencia ao sofrimento natural do parto. Era mais profundo, mais irregular… como se o próprio corpo estivesse hesitando em cumprir seu papel.
Padre Aurelius Varro estava ao lado da cama.
Seus olhos, acostumados à contemplação serena do início da vida, agora buscavam ordem onde apenas o caos se insinuava. Suas mãos estavam erguidas, não em comando, mas em súplica — uma oração que não encontrava forma completa, como se até suas palavras estivessem sendo observadas antes de serem permitidas.
— Respire… — murmurou ele, com uma voz que tentava manter a firmeza. — Está quase… está quase…
Mas não estava. Ele sabia. Algo estava… deslocado.
O ventre da mulher se contraía, mas não com o ritmo que ele conhecia. Havia pausas longas demais. Intervalos que pareciam se estender além do que o corpo humano permitiria. E nesses intervalos…silêncio.
Não o silêncio de alívio. Mas um silêncio… atento. Aurelius inclinou-se, os olhos fixos no ventre que se movia sob a pele esticada.
— Não… — sussurrou, mais para si do que para qualquer outro.
As parteiras trocaram olhares nervosos. Uma delas fez o sinal da cruz, a outra desviou o olhar, como se já tivesse visto o suficiente.
— Padre… — disse uma delas, com voz trêmula — algo não está…
Ela não terminou. Porque naquele instante, o corpo da mulher parou. Completamente. Nenhuma contração. Nenhum movimento. Nenhum som. Aurelius sentiu o coração — o seu próprio coração — bater com uma força que não lhe era comum. Não por medo da morte… mas por algo que não sabia nomear.
— Continue… — disse ele, mais firme agora, como se a ordem pudesse restaurar a realidade. — Continue!
Mas o corpo não obedeceu. O tempo… parecia ter sido suspenso. E então… o movimento voltou. Mas não como deveria. O ventre não contraiu. Ele… cedeu. Lentamente. Como se algo de dentro tivesse decidido sair… sem ser chamado.
Aurelius recuou um passo.
Seus olhos, que haviam testemunhado incontáveis nascimentos, agora se abriam com uma incredulidade que beirava a ruptura.
— Não… isso não é…
Mas era. A criança surgiu. Não com o esforço da vida. Mas com a ausência dele. O corpo pequeno, envolto em sangue, repousou nas mãos da parteira. E então o silêncio caiu novamente. Profundo. Total.
Aurelius se aproximou devagar, como se cada passo exigisse permissão.
— Chore… — sussurrou ele, quase implorando. — Venha… respire…
Nada.
A parteira olhou para ele.
— Está morto.
A palavra ecoou no quarto. Simples. Definitiva. Aurelius fechou os olhos por um instante. Aceitação. Era assim que deveria ser. Às vezes… falhava. Mas então… o corpo se moveu. Um pequeno espasmo. Quase imperceptível. Aurelius abriu os olhos imediatamente.
— Espere.
A parteira congelou. Outro movimento. Dessa vez… mais claro. Mas não era o tipo de movimento que ele conhecia. Não era o reflexo desesperado da vida buscando ar. Era… outra coisa. Aurelius estendeu as mãos. Pegou a criança. Seu toque era firme, mas sua alma… vacilava.
— Respire — disse ele, mais uma vez.
Mas a criança não respirou. Seus olhos se abriram. Lentamente. E olharam. Diretamente. Para ele. Aurelius sentiu algo dentro de si se deslocar. Não era medo. Não ainda. Era… reconhecimento negado.
— Isso não é possível — murmurou.
Os olhos da criança não tinham foco de recém-nascido. Não vagavam. Não buscavam luz. Eles fixavam. Observavam. Como se já estivessem… ali. Antes. Aurelius recuou um passo, ainda segurando o pequeno corpo.
— Não há sopro… — disse ele, quase em choque. — Não há entrada… não há início…
Sua mente buscava ordem. Regra. Sequência. Mas nada se encaixava. A criança se moveu novamente. Sem respirar. Sem chorar. Sem viver… e ainda assim… presente. Aurelius sentiu as mãos tremerem. E então disse, com uma voz que já não era mais firme:
— A vida não começou…
Um silêncio. Pesado. Irreversível.
— …e ainda assim…
Ele não conseguiu terminar. Porque naquele instante… ele compreendeu. E desejou não ter compreendido. A criança continuava a olhá-lo. E Aurelius, pela primeira vez em toda sua existência, não soube dizer se estava diante de um milagre… ou de uma ausência absoluta dele. E naquela noite, algo nele morreu. Não a fé. Mas a certeza dela.
E isso… era muito pior.
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