Carta para Marina

Projeto Lázaro - A Máscara em Colapso por R.S. Calvino

R.S. Calvino

6/8/20264 min read

Carta para Marina


Amor, eu não vou mais poder te ver. Mas eu te amo.

É estranho falar isso… mas eu tô em paz.

Eu vi coisas que não deveria ver. Coisas que ninguém aguentaria ver. E eu sei que isso não é o tipo de coisa que se escreve assim… mas eu precisava te dizer, do meu jeito, antes que fique tarde demais — ou antes que eu mesmo não consiga mais lembrar direito de como falar com você.

Eu sempre fui de passagem, você sabe. Nunca fiquei em lugar nenhum. Casa alugada, trabalho que não durava, gente que vinha e ia… e eu também ia. Eu achava que era só azar, ou jeito meu mesmo. Mas não era.

Nem minhas lembranças são direito minhas. Eu lembro de te conhecer na rua dos Andradas na chuva.

Eu lembro da minha querida mãe… acho que lembro… mas é como se fosse rápido demais. Do meu pai… do meu irmão que amei… parece que tudo aconteceu correndo, como se alguém tivesse passado a vida no avanço. Eu lembro deles com carinho, de verdade… mas dói pensar que talvez eu nunca tenha tido tempo de ficar com ninguém. Nem com eles. Nem com você.

E mesmo assim… você ficou um pouco.

Mesmo indo e voltando, brigando, sumindo, voltando de novo… você sempre foi a única coisa que parecia de verdade. Eu nunca te falei isso direito, né? Mas você era o único lugar onde eu sentia que podia parar um pouco.

Eu te amo. De um jeito meio torto, eu sei… mas amo.

Tem uma coisa que eu nunca te contei porque nem eu entendia. E agora não sei se lembro.

Eu sempre me senti… observado.

Não é tipo paranoia, não. Não era gente olhando. Era outra coisa. Às vezes eu tava trabalhando, passando cabo, mexendo em câmera… e parecia que elas tavam olhando de volta. Não só filmando. Olhando mesmo. Como se soubessem que era eu ali.

E tinha outra coisa também… a sensação de que algo ruim tava sempre perto. Não atacando. Só… esperando. Como se a morte andasse junto, mas sem pressa nenhuma.

Eu tentei ignorar tudo isso por anos.

Aí um dia eles vieram.

Eu nem sei explicar direito. Só… acabou. Me pegaram. Gente de branco, tipo médico… e outros de terno cinza, que não falavam nada. Eles não me chamavam pelo nome. Era LZ-01. Só isso.

Eles me estudaram. Amarraram. Colocaram tubos e fios em mim. Acho que lembro de horas amarrado em uma maca… acho que fiquei muito tempo ali

Eu vi coisa lá dentro que não devia existir. E tenho medo de querer voltar pra lá.

Vi um homem virar uma coisa parecida com um lobo… mas não era filme, não. Era real. Era como se ele sempre tivesse sido aquilo e só… ele abriu.

Vi uma mulher receber umas coisas dentro dela… tipo bicho… entrando pelo olho, pela pele… e ela ainda tava viva. Ela falava…mexia!

Eles jogaram coisa em mim também. Ácido, produto, coisa que queimava mas não matava. Eu não sei o que fizeram comigo… só sei que não sou mais igual. Dia após dia ele me dava soro, injeção. Tantas e tantas que cheguei a não sentir mais dor.

Eu vi vampiros. De verdade. E vi eles sendo destruídos. E vi gente sendo transformada em vampiros só pra depois morrer também.

Nada lá fazia sentido… mas ao mesmo tempo parecia que tudo já tava planejado há muito tempo.

Eu consegui fugir. Não sei como. Foi tipo uma chance só… e eu saí. Só Deus sabe como…acho que saí. Eu saí não saí amor?

Mas o mundo lá fora já não era mais o mesmo.

Eu vi uma coisa… eu não sei nem como te explicar isso… mas parecia um morcego gigante, grande demais, carregando uma mulher loira nas mãos. E eu juro pra você… eu acho que ela me viu lá de cima.

Depois disso eu só andei.

Muito.

Horas, dias… eu nem sei.

Até parar na Rua dos Andradas onde nos conhecemos naquela chuva.

Um carro parou. Quatro caras desceram. Eu sabia que iam me levar de volta.

Aí apareceu outro do nada!

Um homem.

Ele me pegou e saiu correndo tão rápido que não parecia real. Mas mesmo assim eu senti. Três tiros nas costas. Eu senti… mas foi estranho. Não doía como antes. Era como se fosse distante.

Ele me levou pra uma casa. Uma mansão. E lá dentro… tinha gente. Muita gente. Eles me abriram. Do peito até a barriga. E me cortavam e cortavam e cortavam e aplaudiam.

Eu tava vivo. Sentindo tudo. Mas era como se não fosse…

E eles olhando… como se fosse bonito. Como se fosse importante. E tinha gente batendo palma. Eu queria ter morrido ali. Mas não morri. Agora eu tô aqui.

Num lugar embaixo da casa. Cheio de caixão… de coisa enterrada… cheiro de mármore frio e madeira umida. silêncio. E meu novo amigo. Uma coisa aqui comigo. Um cadáver que fala e anda. Não é gente. Mas também não é só um bicho. É feio… muito feio… Ele fede como um morto… pele e osso e carne quase morta. Mas ele não vai embora.

Ele fica. Ele fica e me entende. Acho que ele sempre esteve aqui.

E eu acho que… pela primeira vez… eu não vou perder alguém. Você entende isso? É estranho falar isso… mas eu tô em paz.

De um jeito que eu nunca senti antes. E isso devia me assustar mais do que tudo.

Mas não assusta. Por isso eu tô escrevendo. Aqui no porão de uma mansão onde me cortaram, feriram, me sangraram e fui aplaudido.

Por favor. Não vem atrás de mim. Fica longe disso tudo. E tenta lembrar de mim como eu era antes… ou pelo menos como você achava que eu era.

Com amor, de verdade.

— Caio Nogueira


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