ESTUDO DE ESTILOS - Neil Gaiman
No fantástico naturalizado, o impossível entra no cotidiano quase sem pedir licença; o estranho é tratado com uma serenidade que, justamente por isso, pode torná-lo ainda mais fascinante. Com Neil Gaiman a fantasia sutil e melancólica, onde o extraordinário existe naturalmente dentro do cotidiano, entra sem precisar de explicação.
9/5/20265 min read


Cena do filme "O campo dos Sonhos" (Field of Dreams, 1989)
O fim da tarde era púrpura, embora ninguém na fazenda tivesse pedido que fosse.
A luz atravessava o campo de trigo, pousava sobre o milharal e fazia algumas coisas parecerem mais antigas do que realmente eram. A cerca parecia ter estado ali antes da casa. O celeiro parecia ter conhecido outros donos. Até o velho balanço da varanda, onde Enie descansava com a filha, rangia como se estivesse tentando recordar uma canção que aprendera quando ainda era árvore.
O vento era morno e não tinha pressa.
Ele vinha do outro lado da fazenda, atravessava o trigo, passava pelo milho, brincava um pouco com as roupas no varal e finalmente alcançava a varanda, onde fazia a menina apertar os olhos e sorrir. Depois seguia adiante. Ventos têm lugares para ir, embora raramente contem a alguém quais são.
O homem caminhava em direção à casa com a enxada na mão. Sua camisa fora branca naquela manhã. Agora carregava terra, suor e pequenas manchas verdes das plantas que arrancara. Ele gostava disso. Gostava de terminar um dia podendo olhar para alguma coisa e dizer, mesmo que apenas para si mesmo: eu fiz isso.
Olhou para trás.
O milharal estava limpo e organizado.
Era um bom milharal.
Ele sentia orgulho dele.
— Se você construir, ele virá.
O homem continuou caminhando.
Deu três passos antes de perceber que alguém havia falado.
Parou.
Olhou para a esquerda.
Depois para a direita.
Não havia ninguém.
Olhou para o milho, porque quando uma pessoa ouve uma voz num lugar onde não deveria haver vozes, normalmente olha primeiro para o lugar mais alto em que alguém poderia estar escondido. Não encontrou pessoa alguma. Havia apenas milho.
O milho não pareceu particularmente culpado.
Ele voltou a caminhar.
— Se você construir, ele virá.
Dessa vez parou no primeiro passo.
— Certo — disse.
Esperou.
A voz não acrescentou nada.
Isso o incomodou um pouco. Não porque estivesse assustado, mas porque, se alguém interrompe o caminho de um homem para casa duas vezes, seria educado fornecer informações suficientes para justificar a interrupção.
O sol já jazia pela metade no horizonte quando a filha soltou uma risada fraca na varanda.
Ele olhou para ela.
— Ei, Enie? O que foi isso?
Enie ergueu os olhos.
— O que foi o quê?
— Isso! Essa voz, o que foi isso?
Ela olhou ao redor. Depois olhou para ele.
— Você ouviu alguma coisa? — perguntou à menina.
A criança interrompeu o balanço dos pés.
— Hã?
— Uma voz.
A menina pensou seriamente sobre o assunto, como crianças fazem quando percebem que os adultos esperam delas uma resposta importante.
— Não.
O homem franziu a testa.
— Se você construir, ele virá.
Ele levantou um dedo.
— Essa.
Enie esperou.
A menina também.
— Agora deve ter ouvido, né?
— Continuo não ouvindo — respondeu Enie. — Vem logo, vamos jantar.
Ele olhou novamente para o campo.
Era curioso. Não assustador, decidiu. Curioso.
As pessoas dizem isso sobre muitas coisas assustadoras antes de perceberem que são assustadoras.
— Você ouviu um caminhão de som na estrada?
— Não.
— E garotos com um rádio?
— Não! — Enie inclinou a cabeça. — Você anda mesmo ouvindo vozes?
— Só uma.
A menina riu.
Enie tentou não rir, o que fez com que risse também.
— E o que ela diz?
Ele apoiou a enxada no chão.
— “Se você construir, ele virá.”
Enie olhou para o campo.
Depois para o marido.
— Se construir o quê? Quem virá?
Ele considerou as perguntas.
Eram boas perguntas.
Na verdade, eram exatamente as perguntas que a voz deveria ter respondido desde o início.
— Ele não disse.
Enie suspirou.
— Odeio quando isso acontece!
— Eu também.
A menina começou a rir, embora provavelmente não tivesse entendido a piada. Crianças não precisam entender uma piada quando seus pais estão rindo; às vezes basta saber que aquele é um momento em que todos devem rir juntos.
Ele pegou novamente a enxada e caminhou até a varanda.
Deixou-a encostada na parede, tirou as botas e bateu uma contra a outra para remover a terra. Enie entrou com a menina. Ele ficou um pouco mais, porque o céu ainda estava bonito e porque homens que trabalham no campo aprendem que alguns minutos de silêncio antes do jantar pertencem exclusivamente a eles.
Olhou para o milharal.
— Construir o quê? — perguntou.
O campo não respondeu.
Isso era esperado.
Entrou.
O jantar foi carne, batatas e milho. Enie contou alguma coisa sobre uma torneira que precisava ser consertada. A menina contou uma história muito longa sobre uma borboleta que provavelmente não acontecera exatamente daquela maneira. Ele ouviu as duas, comeu e não mencionou novamente a voz.
Depois lavou o rosto.
Ajudou a colocar a filha na cama.
Consertou provisoriamente a torneira.
E, antes de dormir, foi até a varanda.
A noite havia transformado a fazenda em outra coisa. Não algo ameaçador. Apenas outra coisa. O trigo era uma massa escura, o celeiro perdera as cores e as estrelas pareciam muito mais numerosas ali do que deveriam parecer em qualquer lugar habitado por pessoas.
O milharal continuava no mesmo lugar.
— Se você construir, ele virá — disse o homem, experimentando as palavras.
Nada aconteceu.
Ele sentiu-se um pouco tolo.
— Ótimo.
Virou-se para entrar.
— Você esqueceu de perguntar onde.
Ele parou.
A voz era a mesma.
Olhou lentamente para o milharal.
— Onde?
O vento atravessou o campo.
Dessa vez, a resposta não veio em palavras.
As folhas do milho começaram a se inclinar.
Não todas. Apenas algumas.
Uma depois da outra.
Primeiro uma perto da estrada. Depois outra alguns metros adiante. Depois uma terceira. E outra. E outra.
Ele observou em silêncio enquanto as plantas desenhavam uma linha através do milharal, como dedos indicando um caminho.
A linha terminou no terreno vazio ao lado da casa.
Ele conhecia aquele pedaço de terra. Não havia nada ali. Nunca houvera nada ali, exceto capim, algumas pedras e uma velha árvore que seu pai derrubara muitos anos antes.
O homem ficou olhando para o lugar.
— Ah — disse.
A voz permaneceu em silêncio.
— Ali.
Nenhuma resposta.
Ele pensou um pouco.
— E o que eu construo?
Nada.
Esperou mais alguns segundos.
— Você realmente não gosta de explicar as coisas, não é?
Uma folha de milho balançou.
Talvez tivesse sido o vento.
Ele preferiu pensar que sim.
Voltou para dentro e fechou a porta. Enie já estava no quarto quando ele se deitou.
— A voz voltou? — perguntou ela.
Ele ajeitou o travesseiro.
— Voltou.
— E agora?
— Disse que esqueci de perguntar onde.
Enie abriu os olhos.
— E você perguntou?
— Perguntei.
— E?
— Mostrou.
Ela ficou em silêncio.
— Mostrou onde construir?
— Aparentemente.
Enie pensou por alguns segundos.
— Ainda não disse o que construir?
— Não.
Ela apagou o abajur.
— Odeio quando isso acontece.
Ele sorriu no escuro.
— Eu também.
Na manhã seguinte, antes do café, a filha saiu correndo para brincar.
Pouco depois chamou os pais.
Eles a encontraram no terreno vazio ao lado da casa, exatamente onde as plantas haviam indicado na noite anterior. A menina estava agachada, examinando alguma coisa entre o capim.
— Pai?
— O que foi?
Ela apontou.
Havia uma pedra enterrada ali.
Não seria estranho encontrar uma pedra numa fazenda. Fazendas possuem pedras. Aquela, porém, tinha a superfície lisa e plana, e nela havia palavras quase apagadas pelo tempo.
Ele ajoelhou-se e afastou a terra com os dedos.
Enie aproximou-se.
— O que está escrito?
Ele limpou mais um pouco.
Então leu.
BEM-VINDO DE VOLTA.
Enie ficou olhando para a pedra.
Depois olhou para ele.
— Você já esteve aqui antes?
Ele contemplou aquelas palavras antigas no terreno onde, até aquela manhã, acreditara nunca ter existido coisa alguma.
— Não.
A filha tocou a pedra.
— Então talvez não seja para você.
Ele olhou para a menina.
Crianças às vezes dizem coisas extraordinariamente sensatas porque ainda não aprenderam quais pensamentos devem parecer absurdos.
O vento morno voltou a atravessar o milharal.
Dessa vez ninguém ouviu voz alguma.
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