ESTUDOS DE ESTILOS - Edgar Allan Poe
Edgar Allan produz uma narrativa psicológica sombria na qual uma ideia, culpa, lembrança, pessoa, objeto, medo ou desejo gradualmente ocupe espaço cada vez maior na consciência do personagem.
9/5/20265 min read


Cena do filme "O campo dos Sonhos" (Field of Dreams, 1989)
O fim da tarde pousava sobre a fazenda com aquela serenidade que somente os homens cansados sabem apreciar. Uma luz púrpura atravessava o campo de trigo e se demorava sobre as folhas do milharal, enquanto o vento morno fazia correr pela plantação pequenas ondas verdes e douradas. Na varanda, sua mulher e a filha repousavam no balanço, entregues à tranquilidade daquele instante; de tempos em tempos, o riso da menina chegava até ele, fraco pela distância, mas suficientemente claro para lembrá-lo de que o trabalho daquele dia estava terminado.
Ele caminhava em direção à casa com a enxada na mão. A camisa branca estava suja de terra e marcada pelo suor, mas aquela sujeira lhe agradava. Era a sujeira honesta de quem trabalhara desde cedo e podia agora olhar para trás com orgulho. O milharal estava limpo, as fileiras organizadas, a terra revolvida exatamente como desejara. Detinha-se às vezes para contemplá-lo, não por vaidade — ao menos era isso que dizia a si mesmo —, mas porque havia satisfação em impor ordem à terra e depois contemplar essa ordem.
— Se você construir, ele virá.
Ele continuou andando.
Não porque não tivesse ouvido. Ouviu perfeitamente. Continuou andando justamente porque ouvira.
Durante os primeiros passos, recusou-se até mesmo a olhar para trás. O vento passava pelo milho, e o milho produzia sons; a estrada não ficava tão distante, e sons percorriam distâncias surpreendentes no campo. Poderia ter sido alguém falando. Poderia ter sido um rádio. Poderia ter sido qualquer coisa, e um homem sensato não interromperia o caminho para casa simplesmente porque o vento lhe trouxera algumas palavras.
Ainda assim, enquanto caminhava, percebeu que as repetia mentalmente.
Se você construir, ele virá.
Não sabia por quê.
Tentou pensar no jantar. Tentou observar a esposa e a filha na varanda. Tentou calcular quanto trabalho ainda teria no campo no dia seguinte. Contudo, entre um pensamento e outro, as palavras retornavam exatamente como haviam sido pronunciadas, preservando até a pausa quase imperceptível entre construir e ele. Aquilo o irritou, porque já não conseguia recordar se a voz fora grave ou aguda, próxima ou distante, masculina ou feminina. Recordava apenas a frase.
— Se você construir, ele virá.
Parou.
Desta vez virou-se rapidamente para o milharal.
Não havia ninguém.
Sentiu alívio primeiro e irritação logo depois. O alívio era absurdo, porque nunca acreditara realmente que houvesse alguém ali; a irritação, portanto, era contra si mesmo. Apertou o cabo da enxada e examinou as fileiras perfeitamente limpas que, poucos minutos antes, lhe haviam causado orgulho. Agora procurava entre elas alguma cabeça abaixada, algum garoto escondido, qualquer movimento diferente daquele provocado pelo vento.
Nada.
O sol jazia pela metade no horizonte. Da varanda veio uma risada fraca da criança, e ele se voltou imediatamente.
— Ei, Enie? O que foi isso?
A mulher ergueu os olhos.
— O que foi o quê?
— Isso! Essa voz, o que foi isso?
Ela permaneceu olhando para ele por um instante antes de voltar-se para a menina.
— Você ouviu alguma coisa?
— Hã?
A resposta da criança deveria tê-lo tranquilizado. Em vez disso, produziu uma pequena irritação que ele imediatamente reconheceu como injusta. A menina não tinha culpa de não ter ouvido. Enie tampouco. Talvez estivessem conversando. Talvez o balanço tivesse rangido exatamente naquele momento. Havia inúmeras explicações, e ele começou a enumerá-las para si mesmo com um empenho que, se tivesse percebido, talvez o preocupasse.
Então veio novamente.
— Se você construir, ele virá.
Ele sentiu o corpo inteiro se retesar.
Esperou que Enie reagisse.
Ela não reagiu.
Esperou que a menina interrompesse o movimento do balanço.
Ela não interrompeu.
Apenas ele permanecia imóvel no campo, com a enxada apertada entre as mãos e aquelas sete palavras ocupando subitamente um espaço desproporcional dentro de sua cabeça.
— Agora deve ter ouvido, né?
— Continuo não ouvindo. Vem logo, vamos jantar.
Ele não foi.
Olhou para a estrada. Não havia veículo algum passando, mas isso não significava nada. Um caminhão poderia ter passado antes. O som poderia ter chegado atrasado. Não, pensou imediatamente, não poderia. Não daquele modo. Talvez estivesse parado atrás das árvores. Sim. Isso era possível.
— Você ouviu um caminhão de som na estrada?
— Não.
A resposta veio depressa demais para agradá-lo.
— E garotos com um rádio?
— Não! — Enie sorriu, mas havia agora alguma coisa em seu sorriso que ele não soube interpretar. — Você anda mesmo ouvindo vozes?
A pergunta o atingiu de maneira estranhamente ofensiva.
— Só uma.
Assim que respondeu, arrependeu-se. Só uma parecia pior do que simplesmente dizer que ouvira alguma coisa. Havia uma intimidade naquela resposta, como se ele e a voz já mantivessem uma relação da qual sua mulher estava excluída.
— E o que ela diz?
Ele hesitou.
Era uma frase ridícula. Nada havia nela que pudesse causar medo. Não era uma ameaça, não mencionava morte, não ordenava violência. Ainda assim, percebeu que não queria repeti-la. Enquanto permanecesse apenas em sua cabeça, poderia ser um engano; pronunciada por sua própria boca, ganharia uma existência que ele não desejava conceder-lhe.
— “Se você construir, ele virá.”
Enie franziu a testa.
— Se construir o quê? Quem virá?
Ele olhou novamente para o milharal.
Essa pergunta o incomodou.
Não porque não soubesse a resposta, disse a si mesmo, mas porque a voz fora incompleta. Era isso. Uma frase incompleta naturalmente provocava curiosidade. Qualquer pessoa perguntaria a mesma coisa. Construir o quê? Quem virá? Não havia obsessão alguma nisso. Apenas lógica.
— Ele não disse.
— Odeio quando isso acontece!
Ela riu.
Ele também tentou rir.
— Eu também.
Caminhou finalmente até a varanda e entrou para jantar, determinado a esquecer o assunto. Durante a refeição, perguntou à filha sobre o dia e ouviu Enie falar de pequenas coisas da casa. Respondeu quando precisava responder, sorriu quando percebeu que esperavam que sorrisse e, por algum tempo, chegou a acreditar que a voz desaparecera de seus pensamentos.
Então olhou pela janela.
O milharal estava lá.
Se você construir, ele virá.
Baixou os olhos para o prato.
Não ouvira nada daquela vez. Tinha certeza. A voz não falara novamente. Fora ele quem repetira as palavras dentro da própria cabeça, e essa constatação lhe devolveu imediatamente a tranquilidade. Pensamentos repetiam-se. Canções repetiam-se. Frases absurdas ouvidas ao acaso podiam permanecer na memória durante horas. Não havia mistério algum nisso.
Comeu mais uma garfada.
Se você construir, ele virá.
Desta vez irritou-se consigo mesmo.
— Construir o quê? — murmurou.
Enie parou de comer.
— O quê?
Ele ergueu os olhos e percebeu que a mulher o observava.
— Nada.
Ela permaneceu olhando por mais um instante.
— Você está pensando naquela voz?
— Não.
A resposta saiu depressa.
Rápido demais.
Ele percebeu isso. E percebeu, com desconforto ainda maior, que Enie também percebera.
Voltou a comer, concentrando-se deliberadamente no prato. Não pensaria mais naquilo. Terminaria o jantar, tomaria banho e dormiria. Na manhã seguinte voltaria ao trabalho, e a estupidez daquela tarde seria esquecida. Era isso que aconteceria, decidiu, porque não havia razão alguma para que acontecesse de outra maneira.
Mesmo assim, enquanto mastigava, seus olhos retornaram à janela.
Depois ao milharal.
Depois ao espaço vazio além dele.
Construir o quê?
Essa era a pergunta errada, percebeu.
A enxada parou lentamente em sua memória, a voz voltou com a mesma entonação impossível de definir e, pela primeira vez, ele se deu conta de algo que o perturbou muito mais do que ter ouvido palavras que ninguém mais ouvira.
Desde a primeira vez, jamais se perguntara se construiria.
Apenas o que deveria construir.
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